O Som e a Fúria
A minha opinião final sobre o primeiro livro do meu clube de leitura
O Monte dos Vendavais de Emily Brontë foi a primeira leitura do meu Clube de Leitura O Leitor Comum & Companhia e gostei tanto de fazer esta releitura. Nesta análise entro directamente na minha opinião sobre o texto na sua totalidade, incluindo eventos a meio do enredo, bem como no seu final. Isto para dizer que este texto contém spoilers.
Nelly, I am Heathcliff! He’s always, always in my mind: not as a pleasure, any more than I am always a pleasure to myself, but as my own being. So don’t talk of our separation again: it is impracticable.
Wuthering Heights não é uma simples história de amor e vingança; verifica-se uma batalha sensorial entre dois mundos que, no ambiente do romance, são inconciliáveis: o mundo do som, representado pela força bruta de uma natureza incontestável, e o mundo do texto, idealizado pela civilização através da escrita e do controlo.
A própria narrativa inicia-se com o som do vento a soprar, o rugido intenso de uma tempestade, que define por completo o carácter do lugar e das pessoas que nele se encontram; as árvores não crescem direitas, estão vergadas sobre o peso de uma natureza implacável; e as pessoas são igualmente barulhentas, brutas, falando um dialecto difícil de entender, como Joseph. As próprias emoções das personagens são influenciadas por este vendaval; os sentimentos de Heathcliff e de Catherine não os habitam, mas rodeiam-nas, como trovoada, aprisionando-os numa bolha repleta do som de explosões. O romance escrito por Emily Brontë está repleto de sons, quer seja o som cortante do vento a rugir, quer sejam os gritos fleumáticos das personagens; estes sons representam a força da Natureza contra a qual a civilização tenta combater (Katayama, 1998; Mandici, 2023).
Daí que o mundo do texto surja constantemente durante momentos de conflito; os livros raramente são usados para proveito de uma leitura silenciosa e prazerosa. Os livros são objectos essenciais nos confrontos entre as personagens, podendo servir tanto para a sua defesa como para a agressão. Logo no início do romance, quando Lockwood pressente uma qualquer aparição sobrenatural enquanto alojado em Wuthering Heights, o seu primeiro ímpeto para afastar o espectro sem dúvida malévolo que o assola durante a noite é empilhar um conjunto de livros contra a janela, como se de um crucifixo se tratasse, usado contra aqueles seres que necessitam do nosso líquido rubro para sobreviver. Lockwood, personagem que nos representa como leitores incautos e inexperientes, tenta literalmente utilizar a literatura, o raciocínio, o mundo material, para impedir a entrada do fantasma (Brick, 1959; Katayama, 1998).
A própria Catherine utiliza o livro como objecto, talvez não para o seu uso pretendido; aproveita as margens do testamento para escrever o seu diário, vandalizando assim um texto religioso sem um segundo pensamento sobre as possíveis e eventuais consequências. Apropria-se de um espaço sagrado e patriarcal para expressar a sua própria voz, as demais das vezes silenciada. Heahtcliff, por sua vez, possui um rancor profundo e um desprezo inato pelos livros, pois representam a cultura e a civilização que o rejeitam como indivíduo (Katayama, 1998; Mandici, 2023).
Várias vezes ao longo da narrativa surja o poder redentor e protector da literatura, o que gera um forte contraste entre as diferentes personagens, particularmente entre aquelas que pertencem a Wuthering Heights e Trushcross Grange; aliás, a tragédia do romance pode ser entendida como uma incompatibilidade entre aqueles que vivem no som e aqueles que vivem no texto. Edgar Linton, senhor de Trushcross Grange, vive rodeado pelos seus livros, fechado na sua biblioteca; Edgar, como muitos de nós, utiliza a leitura, os livros e a literatura como um escudo não só contra a emoção crua que o ameaça sufocar, mas também contra a intempérie constante do mundo real que nos rodeia a todo o momento. Pelo contrário, Heathcliff é precisamente o oposto; Heathcliff rosna como um cão, uiva como um animal ferido, não possui a linguagem necessária para expressar e conter a sua dor, especialmente ao saber da morte de Catherine. Quando esta estava no seu leito de morte, Edgar tentou apaziguar os seus últimos momentos com a leitura, colocando um livro na sua mesa de cabeceira; ignorando esta tentativa, Catherine pede-lhe que abra a janela, para passar desta mundo para o próximo ouvindo o vento que vem directamente das charnecas, o som proveniente de Wuthering Heights (Katayama, 1998).
Apesar deste desprezo constante que os habitantes de Wuthering Heights demonstram pela leitura e pela literatura, é precisamente o seu poder de sarar e unir que acaba poor gerar uma trégua na guerra secular entre natureza e cultura. O temor desta casa, há décadas um antro de terror, termina quando Hareton, aquele jovem que chegou a queimar livros pelo facto de não os conseguir ler, aceita ser ensinado a ler pela jovem Cathy. O livro deixa de ser uma arma de arremesso ou um escudo contra os ataques mais implacáveis; passa a ser um elo de ligação, um objecto que vai para além da sua existência meramente física. Entre o som e o texto não há um vencedor claro, não há um que supera o outro, como se poderia achar no início da narrativa; o que ocorre é uma homeostasia, um equilíbrio, em que a civilização aprendeu a conviver com a natureza sem a tentar destruir (Katayama, 1998; Mandici, 2023).
Este livro foi uma releitura para mim e, embora tenha gostado muito mais da primeira vez, sinto que aquilo que fez a diferença desta vez tenha sido estes mergulhos mais aprofundados nos seus temas, nas suas vozes e nas suas inspirações. Se, por vezes, senti que estava a mergulhar demasiado fundo e que ninguém iria ler o meu texto, cuidadosamente pesquisado e devidamente referenciado, por outro lado fico feliz por tê-lo feito, pois permitiu-me apreciar graciosamente a obra majestosa que é este clássico.
Bibliografia
Brick, A. R. (1959). Wuthering Heights: Narrators, Audience, and Message. College English, 21(2), 80. https://doi.org/10.2307/372454
Brontë, E., & Pearce, J. (2008). Wuthering Heights: With an introduction and contemporary criticism. Ignatius Press.
Katayama, M. (1998). Longing for the World of Sounds: The Battle of Nature against Civilization in Wuthering Heights. Osaka University Graduate School of Letters, English Literature and Linguistics. https://doi.org/10.18910/25383
Mandici, M. E. (2023). Antagonistic Classes of Victorian Society in Emily Brontë’s Wuthering Heights: Female Book Knowledge as Cultural Mediator. Romanian Journal of English Studies, 20(1), 62–71. https://doi.org/10.2478/rjes-2023-0007




Nunca li. Acho que há muitos, muitos anos fiz uma tentativa, mas não resultou. Agora, fiquei com vontade de tentar 😉